NA VITROLA DO PIRUCA
Henricão - Recomeço
Não vou começar a escrever sobre este disco sem antes contar como esta obra-prima foi parar em minhas mãos.
Eu já havia escutado alguns sambas ótimos dele nas rodas de samba e aí descolei o CD dele do Ensaio da Cultura. No encarte, li a respeito um disco solo que ele havia lançado. Na hora, lembrei que este disco havia passado pelas minhas mãos num sebo. No mesmo dia, fui ao tal sebo. Cheguei na hora de fechar a casa e tive procurar correndo a preciosidade. Achei. 8 contos.
Chegando em casa, escutei a relíquia. Aí minha felicidade foi completa. Arranjos primorosos, privilegiando a harmonia dos violões e do cavaquinho. O ritmo bem cadenciado com o surdo entrando sempre na hora certa.
As músicas são obras-primas. “Está chegando a hora” é um hino dos estádios de futebol de hoje. Era uma música mexicana (“Cielito Lindo”) que Henricão, sabiamente, adaptou em forma de samba. “Carmelito” é um antigo tango (“Camiñito”) que também virou samba. Estas duas faixas contam com a participação de Carmem Costa, que dividia os microfones com o sambista paulista nas rádios paulistanas nos anos 40.
O samba “Não faça hora”, feito em parceria Caco Velho, eu conheci nas rodas. É um samba paulistaníssimo, que faz referência ao famoso relógio da praça da Sé.
As parcerias mais constantes (inclusive as duas adaptações já citadas) são com Rubens Campos. Mas também assinam parceria com Henricão, os sambistas Raul Márquez e Bucy Moreira, além de José Alcides, Dêdê, Vitor Gonçalves e Caco Velho.
Os sambas são sempre muito cadenciados e diferente dos sambas cariocas. Têm uma característica bem própria as composições dele, inclusive as parcerias com os malandros Bucy e Raul Márquez.
Há no disco, ainda, uma marcha-rancho (“Andorinha”), uma batucada (“Saravá Umbanda”). Porém, o mais surpreendente mesmo, para mim, foi a letra que Henricão colocou, no maravilhoso choro “Sons de Carrilhões” de João Pernambuco. Vale a pena transcrever:
Sons de Carrilhões (João Pernambuco/ Henricão)
“Meu grande amor, eu vou partir
Sei que saudade irá sentir
Pois eu fiz tudo para lhe agradar
Me faz sofrer, me faz penar
Quando distante, eu estiver
Pode pensar o que quiser
Pode dizer que eu fui louco em deixar
Este meu divino lar
Mas pra que viver com quem não quer viver
Eu sempre fui sacrificado em pró do seu pudor
Pelo amor do nosso amor
Mas você sempre fingiu não compreender
O que passou na minha vida
Foi um sonho meu desiludido
O meu amor ardeu”
É isso aí. Paulista também faz samba de primeira.
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segunda-feira, outubro 09, 2006
sexta-feira, março 03, 2006
Palavras errantes
Mais uma vez faltam-me palavras
Mais uma vez escrevo ao léu
Como uma nuvem no céu
Como um barco navegante
Ou um andarilho errante
Que segue sem destino
Sem ficar pensando no amanhã
Apenas vive intensamente
Renascendo a cada manhã
E pra que fazer diferente?
As palavras já estão sendo escritas
Já se perdeu de vista o barco
Que navega sem rumo
Como um pássaro a voar
Escrevo estas linhas
Sempre a sorrir
Como uma onda no mar
Palavras, melodias e emoções
Começam a me invadir
Mas uma vez as palavras vieram
Trazendo inspiração
E assim vou versando
Rimando e cantando
Os mais preciosos momentos
Guardados no tempo
Sempre escutando o coração
Cantar, resgatar, valorizar
Esta é a minha missão
____
Na vitrola do Piruca:
Paulinho da Viola – Memórias Chorando

Um disco de choro maravilhoso onde Paulinho mostra todo o seu virtuosismo de solista. Tanto no cavaco como no violão, ele faz bonito. Os acompanhantes não deixam por menos: Copinha, César Faria, Cristóvão Bastos. Elton Medeiros, Chiquinho (seu irmão mais novo, bandolinista) e outros.
Este pessoal é mesmo que tocou no Memórias Cantando. De primeiro escalão.
Destaque para as composições de Paulinho da Viola. Pra quem pensava que ele era bom de samba, vai ver que ele é um gênio do choro, tanto na composição quanto na interpretação. Há choros exclusivos para violão. Um deles (Rosinha, essa menina) é no melhor estilo do Canhoto da Paraíba, um choro ao modo nordestino.
Um disco indispensável para quem é amante do choro
Mais uma vez escrevo ao léu
Como uma nuvem no céu
Como um barco navegante
Ou um andarilho errante
Que segue sem destino
Sem ficar pensando no amanhã
Apenas vive intensamente
Renascendo a cada manhã
E pra que fazer diferente?
As palavras já estão sendo escritas
Já se perdeu de vista o barco
Que navega sem rumo
Como um pássaro a voar
Escrevo estas linhas
Sempre a sorrir
Como uma onda no mar
Palavras, melodias e emoções
Começam a me invadir
Mas uma vez as palavras vieram
Trazendo inspiração
E assim vou versando
Rimando e cantando
Os mais preciosos momentos
Guardados no tempo
Sempre escutando o coração
Cantar, resgatar, valorizar
Esta é a minha missão
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Na vitrola do Piruca:
Paulinho da Viola – Memórias Chorando

Um disco de choro maravilhoso onde Paulinho mostra todo o seu virtuosismo de solista. Tanto no cavaco como no violão, ele faz bonito. Os acompanhantes não deixam por menos: Copinha, César Faria, Cristóvão Bastos. Elton Medeiros, Chiquinho (seu irmão mais novo, bandolinista) e outros.
Este pessoal é mesmo que tocou no Memórias Cantando. De primeiro escalão.
Destaque para as composições de Paulinho da Viola. Pra quem pensava que ele era bom de samba, vai ver que ele é um gênio do choro, tanto na composição quanto na interpretação. Há choros exclusivos para violão. Um deles (Rosinha, essa menina) é no melhor estilo do Canhoto da Paraíba, um choro ao modo nordestino.
Um disco indispensável para quem é amante do choro
quarta-feira, fevereiro 22, 2006
Rio

Numa cidade linda eu fui parar certo dia. Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Que cenário encantador, que maravilha!
Certa vez me disseram que o Rio de Janeiro continuava lindo e que lá as pessoas respiravam alegria e vida. Mas também me disseram que lá existia uma guerra civil. E aqui em São Paulo não? Nós, cidadãos do Terceiro Mundo vivemos no inferno. Que diferença faz um viver em um inferno feio e um inferno bonito. Eu prefiro viver num lugar perigoso bonito do que num lugar perigoso feio.
Viver em São Paulo tem suas muitas vantagens. Uma delas é estar no umbigo da América Latina. Mas viver em uma selva de pedras é terrível. Eu quero é ir pra praia tomar uma brisa, subir o morro pra entrar numa floresta e meditar...
São Paulo, minha querida cidade, o que fizeram com você? De uma cidadela agradável, virou uma monstruosidade feita de concreto e aço. Depois que eu terminar minha missão aqui, eu vou te deixar. Minha missão é resgatar a história dos velhos sambistas da Paulicéia. Depois eu quero viver um pouco no berço do samba.
Isso me fez lembra de um partido alto que fiz com o Iuri, meu parceiro no samba e na vida, em algum bar das redondezas da faculdade. Era assim: “Se hoje faz frio lá no Sul/ na Bahia, o calor te deixa a toa/ tem o samba da cidade maravilhosa/ mas eu nasci aqui na terra da garoa”.
Rio de Janeiro é onde a cultura floresceu no Brasil. Onde a musica popular se fez. Lá no Rio está nossas raízes bantas. E na Bahia nossas raízes iorubás. Do negro banto se fez a macumba que se dessacralizou-se e deu no samba. Na Bahia, os iorubás fizeram o candomblé, uma religião muito forte assim permanece até hoje.
O Brasil está lá e é por isso que, depois de cumprida minha missão, eu vou partir para lá.
-/-
Na vitrola do Piruca:
Paulinho da Viola / Memórias Cantando
Primeira parte de seu álbum de memórias (o segundo é o Memórias Chorando, só com choros) de 1976. Este disco eu comprei num sebo por dois contos e ficou muito tempo encostado porque eu tinha muitos discos e CDs para escutar. Até que um dia eu coloquei pra ouvir e simplesmente não parei mais de ouvir. Quem me conhece sabe que quando eu bitolo em um disco eu fico meses a fio sem tirar da vitrola.Neste álbum, Paulinho canta músicas que tem um significado especial para ele. Três sambas não são dele. São sambas que ele ouvia quando era criança nas rodas de samba promovidas por seu pai. Sambas lindos com poesias divinas: Pra que mentir (Noel Rosa e Vadico), Nova Ilusão (Claudionor Cruz e Pedro Caetano) e Mente ao meu coração (F. Maltafiano).
Destes três, um é especialmente espetacular.
Nova Ilusão (F. Maltafiano)
É de teus olhos a luz
Que ilumina e conduz
Minha nova ilusão
É nos teus olhos que eu vejo
O amor, o desejo
Do meu coração
És um poema na terra
Uma estrela no céu
Um tesouro no mar
És tanta felicidade
Que nem a metade
Consigo exaltar
Se um beija-flor descobrisse
A doçura e a meiguisse
Que os teus lábios têm
Jamais roçaria as asas breijeiras
Por entre roseiras
Em jardins de ninguém
Ó dona dos sonhos
Ilusão concebida
Surpresa que é vida
Me fez das mulheres
Há no meu coração
Uma flor em botão
Que abrirá se quiseres
Poesia espetacular, não?
As músicas do Paulinho são lindas como todas as outras deste gênio da musica popular brasileira. E não só do samba. Aliás, eu não sei como o Paulinho não tem o mesmo reconhecimento dos grandes da MPB. Mas isto é assunto pra outro momento.
Vou deixar a letra de uma pérola sua deste disco.
Cantando (Paulinho da Viola)
Lembra daquele tempo
Quando não existia maldade entre nós
Risos, assuntos de vento
Pequenos poemas que foram perdidos momentos depois
Hoje sabemos dos sofrimentos
Tendo no rosto, no peito e nas mãos
Uma dor conhecida
Vivemos, estamos vivendo
Lutando pra justificar as nossas vidas
Cantando um novo sentido, uma nova alegria
Se foi desespero, hoje é sabedoria
Se foi fingimento, hoje é sinceridade
Lutando, ‘que não há sentido de outra maneira
Uma vida não é brincadeira
E só deste jeito é a felicidade
Há um partido alto (Perdoa) versado com seu grande e genial parceiro Elton Medeiros que tambem assina a parceira do samba Dívidas na faixa 4 do lado A. Destaque para a maluca parceira com Sérgio Natureza (Vela no Breu) e para a nova versão de seu samba Coisas do mundo minha nega, considerada por ele seu melhor samba.
Os músicos também são de primeira. Nos violões, César Faria, seu pai, e Cristóvão Bastas. No cavaquinho, próprio Paulinho do Cavaquinho. No baixo, Dininho, filho do mestre Dino 7 Cordas. Na bateria, Hércules. Na flauta, Copinha. No bandolim, seu irmão mais novo, Chiquinho. E no ritmo, Elton Medeiros, Rafael, Chaplin, Jorginho, Elizeu, Marçal, Dazinho. E não pense que a bateria e o baixo descaracterizaram o samba, porque o Pulinho sempre gravou com eles e sempre ficou bom. Este é um timaço.
Um disco cativante, que já está na minha vitola há dois meses.
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