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sexta-feira, junho 22, 2007

O mais certinho babava e corria atrás de um avião

Todos estavam empolgados com a grande festa que se aproximava. O Operário estava bêbado e o Cozinheiro, seu irmão, já lançava olhares reprovadores sobre ele. Juntos, se dirigiram para a casa do Kolynos, uma pasta de dente pra lá de animada. Chegando lá encontraram o Palhaço Tits, o Palhaço Cabeção, o Vampiro, o Presidiário, o Padre e a Ninfeta. Com exceção do casal imoral (onde já se viu um padre casar com uma ninfeta?), todos saborearam um doce antes de partirem.

A Colegial se juntou com a trupe e todos partiram felizes para a festa. Lá, encontraram a Pedrita e a Cátia Flávia, que estava um espetáculo. Papo vai, papo vem, e de repente o povo começou a ficar louco. Cerveja era consumida a rodo e a mente da galera já estava a mil. O doce saboreado antes da festa era muito gostoso. Ninguém conseguia se esquecer dele...

Outras figuras ajudavam a deixar o ambiente mais festivo. O Homem-Narguilê distribuía sua fumaça por onde passava. Era uma farra só... Quando começou a rolar um som dançante, o Operário logo mostrou para que veio. Seus passos contagiavam a pista. Ele era uma atração à parte. Pena que pouco tempo depois ele não já não conseguia mais se comunicar com ninguém.

O Cozinheiro estava impossível. Não podia ver um rabo de saia que já ia atrás. Mas seu estado também já não era bom. Deu pra perceber que, conforme avançava a madrugada, o pessoal começava a se transformar em bicho. O Palhaço Cabeção era um exemplo claro disso: ficava tirando sarro de todo mundo e seu rosto já começava a derreter.

De repente, e justamente quando o Kolynos e o Palhaço Tits estavam no palco, surgiu um boato que mudaria o rumo da festa: “o Vampiro arrumou briga”. Todos saíram atrás dele... Mas quem foi encontrado ferido e com a roupa rasgada não foi ele e sim o Cozinheiro. Depois de muita discussão ficou a dúvida: Quem brigou? O Vampiro ou o Cozinheiro? Esta pergunta não quer calar...

Neste momento, o Palhaço Tits se transfigurou. Como uma bola de boliche ele saiu derrubando todo mundo até achar o Vampiro. Mas o Vampiro estava dançando feliz e não sabia o que tinha ocorrido. Palhaço Tits ficou muito puto. “Tira seu irmão daqui”, dizia ele para o Operário. “Ele atrai confusão”. Mas olhando para a cara do Cozinheiro, não tinha como não rir. Aliás, nessa hora, todos riam.

Era um pior que o outro. A pista fervia e o calor fazia com que o povo bebesse mais e mais cerveja. Tamanha era a vontade de beber dos meninos que eles dominaram o bar. Era uma cerveja para as meninas e um beijinho...

Como num passe de mágica, acabou a noite e a luz do dia começou a penetrar o ambiente. A porta da balada virou um portal mágico e quem saia entrava em outro mundo. O aspecto geral dos festeiros era de derrota. Todos muito cansados, cheio de aditivos na mente. O presidente Lula, por exemplo, se arrastava pela pista, já querendo ir embora.

Nesse momento, o Presidiário andava de um lado para o outro. Passava, olhava as meninas, conversava com elas e suava... Como suava. Kolynos também estava ruim. Durante uma hora ficou seguindo o Palhaço Tits. Depois, ficou xavecando a mesma menina por horas. Tomou quinze botas, mas nem percebeu. Finalmente, começou a encanar com o Irlandês.

Kolynos, pasta de dente mais maluca do Brasil, não gostou do estilo do Irlandês. Começou a comentar com o Vampiro que estava incomodado com o sujeito. E lá foi ele falar merda pro cidadão. Durante uns quinze minutos ele ficou xingando o Irlandês. Este, depois de não mais agüentar, decidiu ir embora. Mas Kolynos estava louco e gritava: “Irlandês Maldito!!!”. Neste instante, apareceu o Operário, que começou a gritar junto: “É, você é um maldito, atrapalhou a maratona do cara”, numa clara referência ao padre irlandês (maldito).

O ambiente ficou vazio. Só os mais resistentes continuavam. Cátia Flávia estava na pilha e de tempos em tempos levava uma água para o Operário, que já não conseguia se comunicar.

A hora avançava e quando a festa acabou, o Operário e o Kolynos foram deixados para trás. Aí começaram a ligar sem parar para o Presidiário voltar para a festa. E depois de longa espera ele voltou. Foi uma alegria só. Na volta, no carro, o Vampiro e o Presidiário estavam baleados. Em compensação, o Operário e o Kolynos estavam irradiantes. E gritavam “Irlandês Maldito!” para todos que passavam na rua.

Finalmente, todos voltaram para casa descansar. O domingo seria um dia morto para todos. Mas a semana ainda renderia muita história para contar.

sexta-feira, março 24, 2006

Um gringo no Maracanã

John Man chegou ao Rio de Janeiro cheio de expectativas. Iria conhecer o Maracanã, a imensa torcida do Flamengo e o futebol pentacampeão. Era domingo. Pegaria um solzinho pela manhã e a tarde iria para o jogo. Tudo certo.

Conforme a tarde avançava, ele começou a estranhar a falta de movimento na região do estádio. Esta hora, as ruas deveriam estar cheias, o transito deveria estar caótica. A cidade deveria estar parada, mas não estava. O que estava acontecendo?

Sem entender nada, Mr. Man pegou um táxi em direção ao estádio. Ao chegar, viu um punhado de torcedores de verde e outro punhado vestido de amarelo, vermelho e azul. Comprou o ingresso e entrou. O estádio estava quase vazio. O gringo então perguntou para a velhinha vestida de verde:

— Where’s Flamengo? Where’s Fluminense? Fla-Flu? Where?

A mulher fitou o gringo e rebateu:

— Olha, meu senhor eu não sei do que você está falando mas o negócio de time grande aqui acabou. Tão tudo no buraco. Hoje a semifinal da Taça Rio é Cabofriense e Madureira.

O gringo estava mais perdido que agulha no palheiro. Madureira e Cabofriense não eram palavras comuns para ele.

— Madureira? Where is Flamengo?

Nisso, um torcedor sentado atrás colocou a mão no ombro de Mr. Man e setenciou:

— Flamengo is over, man. Go tell it on the island.

E lá foi o gringo para Londres contar que no Rio o futebol acabou. E que hoje o Maracanã é um campo de várzea, mesmo quando é palco de final de Carioca.

sexta-feira, julho 01, 2005

Senhor, isto não é permitido!

Banco de praça sempre sugere uma descansada. Sentar debaixo de uma árvore, ler um livro, observar a paisagem e, eventualmente, dar uma deitadinha. Na pracinha do campus do Mackenzie, entretanto, isto não é muito possível.

Constantemente vigiado por bedéis que zelam pela segurança e pelos bons modos, é impossível deitar nos bancos do Mackenzie por cinco minutos sem ser abordado por um bedel. Namorar em paz, então, impossível. Uma perna de uma garota sobre o colo de um rapaz já é caracterizado como sexo explícito. E assim vão se passando os dias na pacata Universidade Mackenzie, um lugar imaculado de bondade e livre do mal.

Certa vez, estava eu sentado num banco, em frente a faculdade de Arquitetura, descansando da cansativa e estressante semana que havia passado. Aos poucos fui me esparramando no banco. Quando me deparei, estava totalmente deitado, admirando uma linda copa de jacarandá. Fechei os olhos e comecei a meditar na vida. Como ter uma semana mais tranqüila? Como relaxar para enfrentar as provações do cotidiano? Estava quase adormecendo quando alguém me cutucou: "Senhor, você não pode ficar deitado aí!".

Nesta hora, todas minhas boas energias que estavam sendo criadas em minha mente foram pelo ralo. Pensei em argumentar com a senhora bedel, mas desisti. Sabia que ela apenas cumpria ordens. Voltei a ficar sentado e ela voltou ao seu lugar de vigilante.

Quase caindo de cansaço, passei a observar as pessoas na praça. Reparei que o rapaz do banco ao lado estava tentando ficar com uma garota. "Faz tempo que quero sair com você..." E ficou xavecando uns quinze minutos. Quando finalmente conseguiu beijar a moça (por sinal, uma bela moça), seus corpos se envolveram numa só emoção.

Era um beijo de cinema, a paixão exalava no ar. E então... Eis que surge nossa simpática bedel. Ela cutuca o casal apaixonado e diz: "Senhores, não é permitido isso aqui no Mackenzie". O rapaz, abismado, responde: "Tudo bem, nós já estamos indo para o bar". E lá foram eles. Para um lugar não tão impregnado de bondade, onde os pecaminosos beijos são permitidos.

terça-feira, junho 28, 2005

Sorria!!!!!!


Certa manhã, acordei feliz. Não havia acontecido nada de especial, mas acordei cantarolando, com um baita de um sorriso na cara. Saí de casa com uma alegria incomum, falando "Bom dia!" para Deus e o mundo. Alguns retribuíam o sorriso, outros apenas resmungavam algumas palavras.

Caminhando e cantando, vi que estava quase sozinho com meu sorriso. Ninguém nem sequer olhava para o lado, apenas seguiam com seus passos apressados. Pensei comigo mesmo: "Será que as pessoas não sorriem?" Sim, porque o sorriso está se tornando uma coisa rara nos tempos caóticos de hoje.

Comecei então a reparar nas pessoas. O que será que se passava na cabeça deles? Apenas preocupação? Será que ninguém tinha ao menos um motivo para sorrir? Fiquei tão preocupado com a humanidade que quase perdi a minha alegria.

De repente uma criança passou por mim e sorriu. Até que enfim! Será que apenas as crianças ainda não foram engolidas pelo "vírus da cara-fechada"? Elas ainda não tomaram as bordoadas que a vida dá na gente. Ainda estão envoltas numa pureza que vai se perdendo conforme crescemos. É por isso que temos muito que aprender com eles. Este sorriso gratuito é fundamental para podermos viver com um mínimo de decência.

Esta pureza infantil reforçou meu sorriso. E segui minha caminhada... Aos poucos, o que era raro começou a se tornar um pouco mais comum. Vi um casal apaixonado que irradiava felicidade, vi um torcedor eufórico com a vitória de seu time sobre o rival, vi dois senhores rindo de piadas que há tempos já não tem a menor graça.

E vi dois trabalhadores tomando uma cerveja na hora do almoço. Eles batucavam na mesa do bar e faziam versos de improviso: "Saí de casa pensando e penando por causa dela. Foi-me embora e agora sobrou apenas uma nega banguela" E o outro respondia: "Maria Estela era muito bela e era tudo o que eu sempre quis. Mas só me sobrou aquela outra que ta lá em casa chupando o nariz". E riam muito. E eu ria junto, é claro.

Minha caminhada findou quando cheguei à casa de minha mãe. Mas meu sorriso permaneceu comigo até o fim do dia. E como seria bom se todos fizessem o mesmo. Pensei, então, que não poderia deixar de escrever uma apologia ao sorriso.

E poetas anônimos e famosos já fizeram o mesmo. "O sorriso é o derreter do gelo da alma" ouvi por aí uma vez. "O sorriso é o momento em que a pureza da alma toma conta de nossos sentimentos..." vi escrito em um muro. O mestre Cartola também já sabia que levar a vida a sorrir era o melhor caminho. E é mesmo. Sorria e irradie a felicidade para todos ao seu lado. Sorria e leve a vida assim. Será melhor para o mundo.

A história de uma roda de samba. Capítulo 2

O terreiro estava em festa. A roda de samba era contagiante A alegria que reinava no local em nada lembrava o clima de enterro de alguns meses atrás. Naquela época, o reco-reco de bambu e o repique estavam seqüestrados. Além disso, o violão estava com uma depressão terrível, não queria saber de nada, só sofria.

O tempo passou. Tudo se acertou: os instrumentos foram libertados, a depressão do nosso amigo foi superada por um grande amor e a roda de samba voltou a dar espetáculo. Qualquer coisa era motivo de comemoração. Desta vez, a festa era de despedida.

O violão, que estava arrebentando nas rodas de choro, iria passar uma temporada na Espanha. Sua namorada, a flauta, ficou triste, mas sabia que a experiência na Europa seria muito boa para o seu parceiro. Afinal, ele iria entrar em contato com novos ritmos e novas técnicas.

Na véspera do embarque, a festa foi completa. Integrantes da escola de samba, do terreiro de macumba e da roda de choro também estavam presentes. Uma festa digna da admiração que todos tinham por ele. Ao final do pagode, só os mais resistentes continuavam fazendo barulho. A maioria já havia capotado.

Chegou a hora do embarque. Para todos, a promessa de trazer muito virtuosismo da Espanha. No avião, ficou pensando na flauta. Era difícil dizer para ela, mas a verdade é que ele já não a agüentava mais. Ela só chorava. Tudo bem, chorinho é legal, mas o violão cansou. Quem agüenta tanta choradeira?

Chegando em Madri, foi recepcionado por dois violões. Descansou um pouco e logo embarcou para Sevilha. Era lá que iria aprender novas técnicas de violão. Era lá que ele iria conhecer um novo amor (ou melhor, dois grandes amores).

No Brasil, os instrumentos seguiam suas vidas normalmente. As rodas de samba e de macumba continuavam a sacudir os terreiros. Já o chorinho... Não estava muito bom, não. A flauta não estava conseguindo solar direito. Tinha muita saudade do violão. Percebendo isso, o bandolim, chegou junto dela e falou: "Ô Dona Flauta, não me leve a mal não, mas você não está tocando bem. Quer tirar uma folguinha, descansar, esperar passar esta saudade louca?". Ela não teve dúvida: tirou uma licença...

Aos poucos, a rotina da roda de samba começou a ser alterada. A flauta, convidada pelo cavaquinho, abandonou seu retiro e começou a tocar na roda de samba. Estava sem cabeça para solar, mas podia acompanhar tranqüilamente a levada do samba. O cavaquinho adorou. Era muito amigo do violão, mas tinha um amor platônico pela flauta. Iria ficar mais perto dela.
Os instrumentos que compunham a roda de samba tinham uma amizade muito forte, quase fraternal. Isto não impedia que conflitos ocorressem... Durante a época em que o violão esteve fora, muita coisa aconteceu.

Em Sevilha, o violão começou a freqüentar espetáculos de música flamenca. Ficou impressionado com as técnicas requintadas dos violões de lá. Entretanto, o que realmente o impressionou foram as castanholas. Na hora, pensou na flauta. Pensou naquela choradeira que não agüentava mais. Pensou, pensou, pensou... E correu pro abraço... As castanholas eram encantadoras demais para ficarem sozinhas.

Findado o espetáculo, o violão convenceu as castanholas a irem para o quarto do seu hotel... E, depois de uma noite de muito amor, o violão fez uma propôs a elas: "Por acaso vocês não querem vir para o Brasil comigo?". Era uma proposta absurda, a flauta o esperava no Brasil. Mas elas aceitaram. Como seriam recepcionadas no Brasil?

Muita coisa aconteceu no Brasil durante a época em que o violão esteve fora. Os instrumentos começaram a abrir novos horizontes e a roda de samba começou a ficar cada vez mais em segundo plano.

O repique (aquele mesmo que um dia foi seqüestrado) conheceu uma cítara em uma apresentação de música indiana. Deixou para trás seu antigo romance para começar a se apresentar com ela. Veja como são as coisas: a cuíca, disputada a tapas outrora, agora estava abandonada. Ela ficou injuriada com essa história e se mandou para os EUA. Lá iria ganhar dinheiro com apresentações nas ruas de Nova York.

A deserção não parou por aí... O pandeiro se juntou a um grupo de samba-rock. Ele adorava a roda, mas precisava colocar dinheiro em casa. Sua mulher, a caixinha de fósforo (que só ia ao samba de vez em quando) já o pressionava para arranjar um emprego mais decente.
O atabaque cansou de tocar samba e voltou para a macumba... A roda estava se desintegrando apesar dos apelos do surdo, que cantava a todo o momento: "Não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar...".

Chegava o dia da volta do violão. A roda estava em crise... O repique, a cuíca, o pandeiro e o atabaque haviam abandonado o samba. Cada um tinha a sua desculpa, mas uma coisa era certa: a tirania do surdo impossibilitava qualquer harmonia na roda. Ele se considerava o líder e todos tinham que fazer as coisas do jeito dele.

Quando o violão desceu do avião todos estranharam a presença das castanholas junto dele. A flauta já foi enquadrando seu namorado: "Quem são essas lambisgóias?". A resposta do violão: "Elas vieram conhecer o Brasil e o samba". A flauta, com uma pulga atrás da orelha, foi sucinta: "No momento que elas entrarem na roda, eu saio". O violão, que já não agüentava mais a flauta chorona, se sentiu aliviado e falou: "Então, adeus".

A flauta não acreditava no que estava vendo. Acabara de ser trocada por duas castanholas.
Decidiu nunca mais freqüentar essas rodas boêmias. Iria para uma orquestra... Com isso, mais uma baixa se confirmava na roda.

E não era a última... O violão foi vetado de participar da roda. Sua atitude desagradou a todos. Como ele pôde fazer aquilo com a flauta? Um canalha como ele não tinha vez no samba.
Com a partida da flauta e do violão, o cavaquinho passou a compor desesperadamente. Era a maneira que ele encontrou para não enlouquecer. Mas ele teria de esperar um pouco para mostrar suas músicas. O futuro da roda de samba não era nada animador.

Sobrara apenas o tamborim, o surdo, o cavaco, o sete-cordas, o agogô e o ganzá... Era uma roda com muitos problemas e muita disputa interna. Não se conseguia nem mesmo ensaiar. A prepotência do surdo irritava a todos.

Deu-se então um golpe final. O agogô, o tamborim e o ganzá resolveram voltar para a escola de samba. Lá estariam livres do surdo. Já o sete-cordas e o cavaco, foram convidados para gravar um disco. O prato e a faca, sem terem para onde ir, voltaram para a cozinha. O surdo ficou sozinho...

Após muito samba, a roda de desintegrou. O surdo, sozinho no terreiro vazio, repensou todas suas atitudes. Mas era tarde. Estaria morta a roda de samba? Seriam superados os conflitos internos? Só tempo resolveria esta questão.

(não percam o próximo capítulo..)

A história de uma roda de samba

O cavaquinho dá o tom: é um ré menor. O pandeiro entra, juntamente com o tamborim e o agogô. Quando o samba vai repetir o verso, o 7 cordas capricha na baixaria e o surdo entra na marcação. A cuíca que estava de espreita, só esperando sua hora, começa a gemer. O ganzá vibra enquanto o prato e a faca seguem na levada.

O ritmo é bom, é redondinho. Mas esta faltando alguém: o violão. Pobre violão. Brigou com o cavaquinho e decidiu não entrar mais no samba. O motivo: ciúmes do sete cordas. Viu que o cavaquinho estava muito cheio de entrosamento com as baixarias em ré menor. Depois que descobriu o 7 cordas, o cavaquinho só queria saber de brincar com o mais novo amigo. O antigo parceiro, companheiro de tantas histórias, ficou relegado a ser um mero coadjuvante. O violão, que antes era idolatrado, assediado por todos, teve que se contentar em segurar a melodia.

E não era só o violão que estava ausente: alguém percebeu que o repique de anel e o reco-reco de bambu ainda não haviam chegado. Em compensação, o reco-reco de metal estava lá. E como o samba não pode parar, o ganzá, que estava meio arredio, entrou no refrão. Ele estava invocado. Não era só ele. O pandeiro também estava muito bravo. Desconfiavam seriamente que o reco-reco de metal tinha armado uma cilada aos dois comparsas, o repique de anel e o reco-reco de bambu.

Tudo começou no samba da noite anterior. O reco-reco de metal não pôde participar da roda, já que o reco-reco de bambu era mais educado, não falava pelos cotovelos e nem ficava gritando. A verdade era que o ganzá e o pandeiro tinham simpatia apenas pelo reco-reco de bambu. Este chegava na humildade, não atravessava ninguém. Não gostava de aparecer, não gostava de soar mais alto que ninguém. Já o reco-reco de metal era mais barulhento, mais chegado a desfiles de escola samba. Lá era seu reduto, não o terreiro.

Por diversas vezes, o reco-reco de metal foi barrado na porta do terreiro. A desculpa era sempre a de que já havia outro reco-reco na roda. Como se sentia muito desprestigiado, chamou toda suas gangue, a bateria da escola de samba, para fazer uma emboscada. Queria dar fim no reco-reco de bambu, seu arqui-rival, e no repique de anel. Mas por que o repique de anel estava na lista negra do maldoso reco-reco de metal?

Esta rixa com o repique era antiga. Muitos anos atrás, o reco-reco de metal teve um caso com uma cuíca da escola de samba. Era uma cuíca super afinadinha, uma graça. Foi nos ensaios, na quadra da escola, que começou o caso. Foi um romance tórrido. Mas aí aconteceu uma coisa que o reco-reco de metal não esperava: a cuíca se desentendeu com o cavaquinho puxador. Logo com o cavaquinho puxador, o dono da escola. Resultado: a cuíca foi expulsa e acabou indo parar num terreiro. Neste terreiro, se envolveu com o repique de anel.

Por isso, o reco-reco de metal estava louco. Além de não poder entrar no terreiro (por causa do outro reco-reco), ainda viu seu grande amor se envolver com o repique de anel. Aquilo foi a gota d’água.

Voltemos a fatídica noite da emboscada. Findado o samba, o reco-reco de bambu estava indo para casa quando foi abordado por vinte e cinco tamborins com sangue nos olhos. Quando tentou fugir, foi espancado e amarrado. Já o repique foi cercado por um bando de surdos mal-encarados e nem tentou reação. Foi levado ao cativeiro.

Todos estranharam quando, no samba do dia seguinte, o repique e o reco-reco de bambu não apareceram. Mais estranho ainda foi a presença do reco-reco de metal. Desta vez ele não quis nem saber. Justificou que faltavam dois instrumentos e que sua presença era aceitável. A cuíca ficou meio sem graça ao rever o reco-reco de metal. Afinal, abandonou o seu antigo amor para ficar com o repique.

O samba não ficou muito bom. Todos estavam muito incomodados com o reco-reco de metal (menos o violão que estava encostado num canto, deprimido). Ele atravessava todo mundo com a potência de seu som. Além disso, estava meio descontrolado, tinha tomado umas e outras. Quem mais ficou bravo foi o pandeiro e o
ganzá. Eles eram os maiores prejudicados já que o som do reco-reco de metal os abafava.

O clima ficou tenso. O samba acabou mais cedo. O 7 cordas foi com o cavaquinho para uma roda de choro, queriam esquecer o incidente. Já os outros estavam com os nervos à flor da pele. Sabiam da rixa do reco-reco de metal com o reco-reco de bambu e sabiam que a cuíca trocou o reco-reco de metal pelo repique de anel.
O surdo já estava quase partindo para cima do reco-reco de metal quando a turma do deixa-disso o afastou. O atabaque acabou convencendo a todos os batuques para irem a um terreiro de macumba. Lá eles conversariam mais calmamente.

Depois de muito pensarem no que fazer, o surdo teve uma idéia: ele conhecia o cavaquinho puxador da escola de samba. Iria pedir para ele (que conhecia bem os seqüestradores) ajudar na investigação.
O reco-reco de bambu e o repique de anel eram muito queridos na roda. Estavam sempre contagiando a todos com sua alegria. Sem eles, não havia clima para a roda prosseguir. Além disso, a eterna melancolia do violão já começava a preocupar.

Mais um dia se passou e lá veio o reco-reco de metal, com um baita sorriso. Recebeu de volta olhares fulminantes. O samba estava suspenso até os dois amigos serem encontrados. O vilão da história não estava nem aí. Foi embora rindo, crente que iria conquistar o coração da cuíca novamente. Porém ela estava morrendo de raiva dele.

Ao chegar na escola de samba, dando risada, o reco-reco foi enquadrado pelo cavaquinho puxador. Ele disse: "Ó, é o seguinte: tô ligado na sua, sei do seu proceder errado. Meus amigos lá do terreiro disseram que você é o culpado pelo desaparecimento dos chegados deles". O reco-reco tremeu na base. Se havia alguém que ele respeitava, era este cavaco. O puxador prosseguiu: "Se você quiser continuar tocando, libera os malucos. Se não, vai acabar no ferro-velho". Ele, então, aceitou liberar os prisioneiros.

À noite, após muita negociação, os dois instrumentos foram libertados, não estavam entendendo nada. Viram a cara de arrependimento do reco-reco de metal e o perdoaram. Voltaram para o terreiro e o reco-reco de metal voltou para o ensaio geral.

Triste por não poder fazer samba de terreiro e por ficar sem seu amor, mas feliz por ter sido perdoado, o reco-reco de metal se entregou de corpo e alma à escola de samba. Mas não esqueceu seu grande amor. Morreu de desilusão.

No terreiro, tudo voltava ao normal: o reco-reco de bambu estava de volta dando sua graça, o romance da cuíca com o repique pôde prosseguir e o ganzá e o pandeiro já não estavam sendo atravessados. Mas o violão ainda estava triste. E era ruim ter alguém triste na roda.

Todos os instrumentos se reuniram e tiveram uma idéia: o 7 cordas e o cavaquinho iriam leva-lo para uma roda de choro. Lá, iriam apresentar o violão para a flauta, que já era afim do violão há tempos.
O violão foi e, quando viu a bela flauta de prata, se apaixonou. Não saiu do choro nunca mais. E o casamento se deu em grande estilo: muito samba e choro, com todos caprichando. E mais uma vez a roda trouxe alegria e prazer.